jogando conversa fora sobre A vida, o Universo e tudo maisNostalgia

Vinte e Poucos

21 de junho, 2015

foto de capa by Ana Flávia Cador

 

Ela gesticulava com o copo na mão e falava de forma muito decidida. Em 5 minutos todos na mesa já tinham sua atenção. A medida que o pensamento se desenvolvia, ela sentia-se mais segura e mais confiante de que aquela era a opinião definitiva da vida sobre aquele assunto. O chefe já tinha deixado de ouvir o que eu dizia sobre o novo Star Wars, ele sempre desvia o assunto quando digo “Claro, assistia com o meu pai”. Acho que faz ele se sentir velho. Mas ela, ah… ela tem aquele brilho e confiança de quem nunca teve os sonhos destruídos ou coração partido. Ela poderia dominar o mundo se quisesse. Ela tem toda aquela paixão de quem fala de algo que não se conhece, de quem não sabe do que está falando. Eu, já hipnotizada pelo discurso acordo de repente do transe e me lembro. Sim, não faz muito tempo. Eu lembro bem de como era. Lembro de como a vida parecia tão direta e clara. Lembro de carregar toda aquela convicção nos ombros. No minuto seguinte eu percebo.. eu queria ser assim de novo. Eu queria de novo toda essa tolice, toda essa segurança. Quero abraçar a certeza de que nunca vou mudar de ideia e não deixar que ela se vá.

 

Eu queria ser jovem de novo.

 

No meio do meu desvaneio o pedido chega. O almoço semanal da empresa continua com o chefe dizendo o que vai cozinhar nesse fim de semana. Ela sorri pra mim e pergunta se pode pegar uma das minhas batatinhas. “Humm, prefiro com casca”.

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A primeira coisa que descobri sobre o vigésimo quinto ano de vida é que não, não sou velha. Não vivi sequer a metade do que um ser humano vive em média. De onde vem esse pensamento generalizado de que a vida acaba aos 30 anos? Por outro lado, começo também a agir cada vez mais como pessoas mais velhas que eu agem, desdenhando da juventude por sua inexperiência e inconsequência. Aos poucos me esqueço de toda a certeza que eu mesma carregava nessa época e que MEU DEUS ainda carrego.

 

Decidi escrever sobre isso porque ao chegar aos 25 anos me senti novamente aos 10. Naquela época ouvia que era nova demais pra sair sozinha mas era velha demais pra brincar de casinha. O que ouço agora são as pessoas mais novas dizendo “Nossa! como você tá velha! tá perto dos 30!” e o que ouço dos mais velhos é “Nossa! mas você ainda é tão jovem, se eu fosse você estaria viajando o mundo, aproveitando a vida”. Mas em meio a toda maré de sentimentos, me desesperei ao descobrir que toda a certeza sobre carreira, vida, universo e tudo mais tinha desaparecido. Aos 25 anos de idade eu não sei o que eu quero.

 

Essa insegurança provavelmente é fruto da cobrança de temos de viver uma vida inteira antes dos 30. Preciso me formar, te um excelente emprego, um cargo de chefia, mestrado, comprar uma casa, um carro, viajar o mundo,  tenho que manter o peso, sair, me divertir e pras mulheres essa cobrança ainda se estende a ter marido e filhos.

 

Obviamente, não é de hoje que as regras da vida perfeita vem sendo ditadas. Sempre houve e sempre haverá a receita de como viver a vida escrita pelas pessoas felizes e bem sucedidas. Alguns viram jovens milionários aos 20 anos, outras pessoas só encontram a realização depois dos 40. Existem histórias e histórias, de todos os tipos que se pode imaginar. Mas não se pode viver a história alheia, só pode se viver a própria história, com seu próprio passado, com suas influências, decisões que vão gerar seu próprio futuro. Mas todos temos algo em comum, todos nós vivemos o mesmo tempo, vivemos o tempo de uma vida. E esse tempo também é só seu e cabe somente a você saber o que fazer com ele.

   

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