jogando conversa fora sobre A vida, o Universo e tudo maisNostalgia

O tempo voa

24 de setembro, 2014

Acelerei o passo procurando a sombra da marquise. Já está bem quente a essa hora da tarde, não é novidade. Sempre faz muito calor nessa época do ano. Eu pude vê-lo no fundo da loja escura, onde ele sempre esteve. Em meio a um monte de papeis, cadernos, canetas e outros materiais escolares. “O que vai ser pra hoje?” ele pergunta sem levantar a vista. Durante o segundo que passou até que ele me olhasse nos olhos, dez anos passaram como um filme projetado nas paredes.   Long time   Voltando da escola, eu lembro que preciso comprar um caderno. A tal “importante” aula de matemática acabou com todas as minhas folhas de novo. Pergunto-me se ano que vem, no 3º ano as coisas serão melhores. Caminho sem saber como as coisas eram simples nessa época.
Indo pra escola, escutando um CD do Death no disck man, lembro de perguntar pro tio da papelaria se por acaso ele tem alguns lápis e papéis pra desenho. Hoje tem pastel na feira, mas as coisas andam sem sabor. Só quero que a aula termine logo pra eu escutar metal e desenhar no trabalho.
Voltando do cursinho no ônibus lotado, lembro que ele me disse semana passada “suas canetas chegam semana que vem”. Tenho que arrumar um tempo pra desenhar enquanto estudo pro vestibular. O curso de desenho tem ajudado muito, mas preciso praticar mais.
No trabalho, correndo pelos corredores do hospital cuidando da papelada de um paciente com embolia pulmonar, ainda não acredito que não passei no vestibular. Mas tudo bem, quem precisa dessa universidade pública estúpida. Não ligo de trabalhar tanto pra pagar a faculdade. Por falar, não posso comprar as canetas pra terminar o trabalho, vai ter que ser lápis de cor mesmo.
Andando pelos corredores da FAV-UFG ainda não acredito que consegui a transferência. Agora sobra grana pra comer e até dá pra tomar um creme de morango. Ah, finalmente posso comprar as canetas. Não era pra esse curso ser assim tão difícil. Não era pra minha vida emocional estar tão destruída. Não era pra eu passar tantas horas no meu quarto chorando sem saber o que fazer com esses sentimentos. Levanto a cabeça do travesseiro e lembro que preciso de mais papel pro trabalho de amanhã.
Já fazem dez horas seguidas que estou trabalhando nessa revista. Mas eu sequer senti fome. Descobri que mergulhar fundo num oceano de trabalho é a melhor forma de não me lembrar das coisas ruins. Pela primeira vez me dedico tanto a alguma coisa que eu gosto. Ah, preciso de canetas pra amanhã.
Todo mundo me falou que seria difícil fazer um TCC sozinha. Eu já sabia disso. Mas não me contaram que era pra eu fazer isso enquanto todo o resto desmoronava em volta. De uma forma muito estranha isso tem deixado meu trabalho melhor. Vou precisar de mais uma resma de papel.
Subindo a rua com alguns lápis novos, pela primeira vez em muitos anos eu me sinto livre. Finalmente fechei um ciclo que me fez muito mal, envenenou meu espírito por muito tempo. E só precisei de uma atitude, aquela que durante muito tempo eu achei que seria difícil demais pra mim. Até voltei a desenhar por gosto.
Eu deveria ter comprado o caderninho de anotações junto com o envelope. Agora é tarde. Minha primeira viagem internacional, passei um ano inteiro juntando dinheiro pra isso e não lembrei de trazer um caderno de anotações. Esse cara de nome estranho deve saber onde eu acho isso por aqui.
Tantas frustrações, lembranças e sentimentos ruins agora estão no passado. Passar um ano inteiro tendo uma única boa lembrança de uma viagem de 15 dias provavelmente teve muita influência nessa decisão. Não foi fácil deixar a empresa onde trabalhei durante cinco anos, a família e até os amigos, que eu julgava não se importarem mais comigo. Agora eu sei que esses momentos ruins serviram pra provar que a amizade verdadeira supera todas as barreiras. Barreiras que agora parecem tão pequenas a distância. Parece que recomeçar se tornou parte da minha rotina e não soa mais como um problema.     Levantando os olhos, ele demora alguns segundos tentando reconhecer a figura que lhe pergunta sobre tinta guache branca, mas daquela de 250ml. Ele finalmente sorri, mostrando que de fato se lembra de mim. “Não te vejo desde janeiro. Como vai seu pai?” “Vai bem, seu Divino, trabalhando muito, como sempre”. “Sua irmã já tá na faculdade, né?” Ele pergunta enquanto procura no meio da típica bagunça do estabelecimento. A mesma bagunça de dez anos atrás. Ele me escuta dizer que sim, minha irmã está fazendo faculdade e vai ser piloto de avião. Ele faz um gesto de aprovação. “Você sempre compra essas coisas que ninguém mais procura.” Ele sorri por trás dos óculos que não conheciam aquelas rugas dez anos atrás. Depois de pagar, aceno dizendo “Té mais vê!” Ele acena com aquele sorriso simpático, dentro daquele lugar onde não se passou sequer um dia.  

Comenta aí: