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Meus Problemas com as Mulheres – Robert Crumb

9 de dezembro, 2012

Alerta: esse post possui um número exorbitante de eufemismos. Quem conhece o trabalho do Robert Crumb já está cansado de saber que ele é um maluco do caralho e que tudo o que ele faz tende a ser nada convencional. Não poderia ser diferente com esse álbum aqui. Em Meus Problemas com as Mulheres, Crumb expõe da forma mais bizzara possível todas as inquietações e fetiches que o afligiram por toda a vida em relação a aquilo que foi seu maior tormento e deleite: as mulheres. Se você nunca leu nada do Robert Crumb, esse não é o melhor lugar pra se começar. Leia América ou Minha Vida. Em geral, esse álbum pode ser considerado extremamente ofensivo, portanto, se você não quer se sentir ofendido(a) eu recomendo que nem se atreva a folhear isso aqui, porque de fato esse livro tem coisas muito bizarras pra maioria das pessoas, não só pras mulheres. Eu sinceramente não fiquei chocada o que encontrei no conteúdo do álbum, simplesmente porque já conheço o trabalho insano do Robert Crumb. Tentei ler esse álbum com a intenção de entender o que se passa na mente desse quadrinhista que eu admiro por demais e considero na verdade genial. Já adianto que a conclusão é de que realmente ele é um louco de pedra, mas me diga: quem não é? Aqui nós temos um apanhado de todas as maluquices do Crumb ao longo da sua carreira. É um aglomerado de várias pequenas histórias e algumas vezes simplesmente rascunhos aleatórios que ele fazia no seu caderno de desenho. Ele explica que sempre teve uma tara por mulheres mais gordinhas, com pernas grossas e bumbum grande, que na verdade é a maior obcessão dele. Inspirado por S. Clay Wilson, cartunista americano que desenhava qualquer bizarrice que lhe passasse pela mente, ele decidiu que não teria porque guardar toda aquela insanidade pra si, e com isso começou a expressar todas as excentricidades que lhe vinham à mente que, por sinal, nem ouso mencionar aqui. Ele próprio admite que vai ser odiado pelas mulheres. Todos os fetiches, todas as muitas garotas que lhe atormentaram os sentidos, as fantasias mais estranhas leia pervertidas que se pode imaginar, ele expõe aqui, sem se preocupar com julgamentos ou moralismo e afinal, é preciso muita coragem pra expor ao mundo tudo que se passa no fundo da sua mente, tenho certeza de nenhum de nós, nem eu nem você que está lendo, teria essa audácia. Algumas das histórias são de fato grandes maluquices, mas em duas histórias específicas é onde mora a essência do que ele realmente quer dizer com tudo isso, são elas Meus problemas com as mulheres parte 1 e parte 2. Aqui ele conta sua história desde a escola até a vida adulta, que segundo ele não mudou muita coisa. O fato é que ele, Robert Crumb, nunca foi o modelo estereotipado que é desejado pela maioria das mulheres. Ele era a imagem do nerd franzino, tímido, introvertido, nunca se interessou por esportes e não sabia como falar com as garotas, motivo de chacota dos caras bonitões e babacas que se sempre se davam bem. O que restava a ele era se perder nas suas próprias fantasias, desejando que algum dia elas pudessem se realizar, se perguntando o tempo todo porquê elas gostavam tanto desses caras que eram os maiores idiotas que poderiam existir na face da terra. Daí ele conta que quando se tornou famoso como o grande herói da contracultura ele passou a ter todas as mulheres que sempre desejou, e a grande ironia é que era exatamente o tipo de mulheres que sempre o desprezou durante toda a vida. Ele se aproveitou da situação durante um longo tempo, até se cansar das fantasias que se tornaram vazias e por fim se aquietou com a esposa, Danna, mas sem deixar de desenhar suas típicas mulheres rechonchudas. Fantasias explícitas, machismo, maluquices e tudo mais, por incrível que pareça não foi o que me deixou mais perturbada com esse álbum. O que mais me atordoou, foi o fato de que me identifiquei com a história do Crumb. Ok, que fique CLARO: eu NÃO tenho fantasias com mulheres gordinhas. Mas assim como Crumb, passei toda a vida sendo a menina feia, tímida, esquisita a quem ninguém dava atenção. Sempre fiz o possível pra ser invisível pra grande maioria das pessoas que me cercavam, na tentativa de não ser mais humilhada do que já era de costume. O Crumb encontrou sua forma de expressar sua personalidade reprimida, no meu caso, acabei desenvolvendo um humor ácido como uma forma de proteção, uma camuflagem pra que as pessoas gostassem de mim, e de certa forma acabou funcionando e é algo que me acompanha sempre desde então. Apesar de toda a bizarrice, no fundo o autor de Meus Problemas com as Mulheres é um cara sensível, um artista humano e acreditem, extremamente sentimental. Minha história favorita desse álbum é Eu Agraceço, aqui está o Crumb que eu admiro de verdade. Percebi que, assim como ele, eu também agradeço principalmente por saber desenhar. Ele fala uma coisa muito bonita que vou transcrever: “Comecei com o pé esquerdo, mas de alguma forma deu certo… sim, a vida é dura, é cheia de decepções… é assim que as coisas são. Mas sabem como é, não é tão ruim assim se vocês conseguirem manter a coisa andando.. caso os seus valores não sejam distorcidos demais e vocês não forem vítimas de nenhuma tragédia (…) A vida pode ser muito boa, pode mesmo… com muito esforço e um pouco de sorte… não quero  que vocês pensem que estou me gabando – quem sou eu? em algum lugar do caminho, os deuses resolveram pegar mais leve comigo e , acreditem em mim, eu agradeço! Obrigado!” Pra quem quer uma opinião masculina sobre esse álbum, eu recomendo o MRG de quadrinhos nº 137

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